A escassez de equipamentos de radioterapia e sua distribuição no Brasil

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Trabalho publicado no The Lancet, por grupo de pesquisadores brasileiros, desenvolveu uma ferramenta utilizando o índice de escassez de LINACs para ajudar a priorizar o desenvolvimento da infraestrutura de radioterapia em todo o Brasil

Assim como em diversos países de renda média-alta, há um grande déficit nos serviços de radioterapia para o tratamento do câncer no Brasil. Neste estudo, foi desenvolvido um índice de escassez do acelerador linear (LINAC) nos três âmbitos (municipal, estadual e regional) para avaliar a escassez de LINAC e apoiar a priorização da nova distribuição de LINAC no Brasil.

Trata-se de um estudo transversal, de base populacional, que utilizou dados das estimativas de câncer de 2020 do Instituto Nacional do Câncer, do Censo de Radioterapia 2019 do Ministério da Saúde, dos relatórios de progresso do programa de expansão da radioterapia do Ministério da Saúde e do banco de dados público da Fundação Oncocentro de São Paulo do Registro Hospitalar do Câncer do Estado de São Paulo para cálculo do índice de desabastecimento do LINAC.

Os dados coletados foram: número de novos casos de câncer no Brasil, número de LINACs por região e estado, número de casos de câncer tratados com radioterapia, estado de residência do paciente, centro de tratamento de radioterapia e local. Dados de três instâncias: nacionais, regionais e estaduais foram coletados para análise. Estimou-se os números LINAC, incidência de câncer, distribuição geográfica e necessidades de radioterapia. Com isso, um índice de escassez do LINAC foi calculado como uma medida relativa da demanda do LINAC em comparação com a oferta com base no número de novos casos de câncer, número de pacientes que necessitam de radioterapia e o número de LINACS na região ou estado. Em seguida, foi construída uma estrutura de priorização usando o índice de escassez da LINAC, incidência de câncer e fatores geográficos. Por fim, usando dados de registro público de câncer em nível de paciente da Fundação Oncocentro de São Paulo e mapas do Google, estimamos a distância geoespacial percorrida por pacientes com câncer de seu estado de residência para tratamento de radioterapia em São Paulo de 2005 a 2014. Estatísticas não paramétricas foram utilizadas para análise.

Resultados:

Os dados foram coletados entre 2/2 e 31/12 de 2021. Em 2020, foram 625.370 novos casos de câncer no Brasil e 252 máquinas LINAC. O número de LINACs foi inadequado em todas as regiões brasileiras, com um índice nacional de escassez de LINAC de 221 (ou seja, 121% menos do que a capacidade de radioterapia necessária). O índice de escassez do LINAC foi maior nas regiões centro-oeste (326), norte (313) e nordeste (237), do que nas regiões sudeste (210) e sul (192). Quatro estados (Tocantins, Acre, Amapá e Roraima) da região norte ficaram em primeiro lugar no ranking de priorização devido à indisponibilidade de LINACs. Além disso, houve associação entre o índice de escassez do LINAC e o número de pacientes que viajaram para receber radioterapia. Os pacientes residentes na região centro-oeste (793 km), as das regiões norte (2.835 km) e nordeste (2.415 km) percorreram distâncias médias significativamente maiores para receber tratamento radioterápico em São Paulo do que os pacientes residentes nas regiões sudeste ou sul (p=0,032). A escassez de LINACs nessas regiões foi associado à maior distância percorrida.

Como podemos observar, existe uma discordância substancial entre a distribuição dos casos de câncer e a disponibilidade do LINAC no Brasil. Desenvolvemos uma ferramenta usando o índice de escassez de LINACs para ajudar a priorizar o desenvolvimento da infraestrutura de radioterapia em todo o País e com isso melhor atender regiões em que o acesso ao tratamento radiológico é mais dificultado.

Referências:

Viani GA, Gouveia AG, Bratti VF, Pavoni JF, Sullivan R, Hopman WM, Booth CM, Aggarwal A, Hanna TP, Moraes FY. Prioritising locations for radiotherapy equipment in Brazil: a cross-sectional, population-based study and development of a LINAC shortage index. Lancet Oncol. 2022 Apr;23(4):531-539. doi: 10.1016/S1470-2045(22)00123-1. Epub 2022 Mar 14. PMID: 35298907.

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