Avaliação imunológica das vacinas contra o SARS-CoV-2 em pacientes com câncer

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Estudo prospectivo da coorte CANVAX, publicado no Journal of Clinical Oncology, demonstrou que as respostas imunes às vacinas contra SARS-CoV-2 são modestamente prejudicadas em pacientes com câncer

Um estudo de coorte prospectivo se propôs a avaliar a imunogenicidade, a qual se relaciona a produção de imunoglobulinas, e a reatogenicidade, a qual se refere a ocorrência de efeitos adversos à aplicação, de 3 vacinas de proteção contra a COVID-19. O estudo se faz válido na medida em que esses parâmetros ainda não são totalmente estabelecidos e compreendidos na atual literatura. 

Foi utilizada uma coorte de 1001 pacientes, dos quais 762 foram eleitos para o estudo e 656 tiveram neutralização medida, com neoplasias tanto de órgãos sólidos quanto hematológicas. Os parâmetros desejados foram medidos 7 dias ou mais após a aplicação da segunda dose das vacinas mRNA-1273 (Moderna) e BNT162b2 (Pfizer) ou da dose única da Ad26.COV2.S (Janssen). 

A nível imunogênico, utilizando a concentração geométrica média (GMC) e a neutralização geométrica média (GMT), foi concluído que a vacina mRNA-1273 obteve maior potencial de neutralização de proteínas SPIKE do SARS-CoV-2, com uma GMC de 2,9 e GMT de 1,9. Essa foi seguida pela BNT162b2 (GMC 2.4, e  GMT 1.9) e pela Ad26.COV2.S (GMC 1.5, e GMT 1.4). Vale ressaltar que, para esta última vacina, a incidência de indivíduos com baixa neutralização foi de 69,9%. 

Alguns comentários acerca de subpopulações do estudo são relevantes; comparativamente com a população sem câncer, a titulação de anticorpos e a neutralização foi inferior nos pacientes oncológicos. Pacientes que receberam quimioterapia no ano anterior ou que fizeram uso contínuo de corticoide apresentaram menor titulação de anticorpos. A incidência e o tipo de eventos adversos variaram para cada vacina e foi correspondente a resposta imune. Dos 32 pacientes que receberam a terceira dose de reforço, 30 apresentaram elevação da titulação de anticorpos, tendo sido a incidência de eventos adversos similar às duas outras aplicações. 

Pode-se concluir, portanto, as vacinas contra COVID-19 são bem toleradas em pacientes com câncer, e a maioria obtém respostas que provavelmente estão associadas à proteção, ainda que estes pacientes apresentem menor imunogenicidade secundária à aplicação das vacinas. No entanto, a titulação de imunoglobulinas e a avaliação do seu potencial de neutralização, ainda que valiosa para a literatura, não pode ser superior ao fato de que a proposta das vacinas na atualidade é prevenir a incidência de casos novos, amenizar a sobrecarga do sistema de saúde e auxiliar na contenção da disseminação do vírus, independente do fabricante. Ademais, a população extremamente heterogênea recrutada para o estudo, incluindo neoplasias sólidas e hematológicas, impede a precisão de observarmos qual subgrupo realmente se mantém mais vulnerável mesmo após a vacinação, o que permitiria medidas mais direcionadas e individualizadas. Desse modo, estudos mais robustos, prospectivos, randomizados se fazem necessários para que possamos ter mais conhecimento desse comportamento.   

Referências: 

Naranbhai V, et al., Immunogenicity and Reactogenicity of SARS-CoV-2 Vaccines in Patients With Cancer: The CANVAX Cohort Study. J Clin Oncol. 2021 Nov 9:JCO2101891. doi: 10.1200/JCO.21.01891. Epub ahead of print. PMID: 34752147.  

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