Desfechos clínicos de casos discutidos em reuniões multidisciplinares do tipo Molecular Tumor Board

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Metanálise publicada no JCO Precision Oncology demonstra que resultados clínicos são promissores para pacientes selecionados e tratados de acordo com consenso de painel de especialistas

A indicação de terapias direcionadas a mutações detectadas através de sequenciamento de nova geração (NGS) do material genético tumoral se tornou, nos últimos anos, um procedimento padrão para vários tumores sólidos, predominantemente no cenário recorrente ou metastático. O uso de drogas-alvo na maioria das vezes se demonstra mais efetivo e menos tóxico que a quimioterapia convencional, impactando positivamente tanto em sobrevida quanto em qualidade de vida para os pacientes submetidos a esse tipo de tratamento. Além de não ser disponível universalmente e apresentar custos elevados, uma limitação adicional do uso de terapia-alvo é a ausência de diretrizes que orientem médicos oncologistas a fazerem o melhor uso possível das informações disponíveis nos relatórios de sequenciamento gênico.   

Dito isso, uma estratégia que vem sendo amplamente implementada por muitos serviços médicos é a realização de reuniões multidisciplinares do tipo Molecular Tumor Board (MTB), onde médicos oncologistas, cirurgiões, geneticistas, farmacêuticos, patologistas, radiologistas, radio-oncologistas e pesquisadores de ciências básicas discutem as alterações moleculares dos painéis genômicos para, em seguida, definir as implicações terapêuticas desses achados para o tratamento dos pacientes. Essa avaliação pode, de forma adicional, implicar em indicação de aconselhamento genético pela identificação de mutações provavelmente relacionadas a síndromes de predisposição ao câncer. Várias instituições já reportaram em revistas científicas suas experiências de MTBs institucionais, e a indicação de inclusão de pacientes em estudos clínicos gira em torno de 10%. Em contrapartida, o impacto dessa estratégia nos desfechos clínicos objetivos dos pacientes ainda não é claro.   

Com o objetivo de estudar a magnitude do benefício das discussões clínicas, foi conduzida uma metanálise incluindo 14 estudos e um total de 3.328 pacientes. Todos os pacientes incluídos não possuíam linhas de tratamento padrão disponíveis para seus casos, e a maioria deles já havia recebido várias linhas de tratamento sistêmico prévio. O painel de sequenciamento gênico variou entre os estudos, mas o uso da plataforma FoundationOne foi o mais prevalente. A frequência de identificação de mutações acionáveis variou de 36% a 100%, e a parcela de pacientes que recebeu o tratamento recomendado pelo MTB variou de 11 a 39%. A taxa de benefício clínico variou entre 42% e 100% e, nos estudos que reportavam taxa de resposta objetiva, ela variou de 0 a 67%.   

Dois estudos prospectivos foram incluídos nessa metanálise. Radovich et al., comparou prospectivamente a sobrevida livre de progressão (SLP) de 168 pacientes referidos para o seu MTB institucional na Universidade de Indiana. Desses, 67 perderam seguimento ou tinham tempo de seguimento insuficiente para inclusão no estudo. Dos restantes, 44 receberam terapia direcionada com base nos achados moleculares e 57 receberam tratamento padrão. O uso de terapia alvo aumentou a mediana SLP de 49 para 86 dias (HR 0,55, IC 95% 0.37 – 0.84). Réda et al., avaliou 506 pacientes atendidos pelo seu grupo em Dijon, na França, que foram encaminhados para MTB. Desses, foi possível realizar análise por NGS em 386 amostras. O desfecho primário do estudo foi factibilidade de indicação de tratamento pelo MTB com base nos resultados de NGS, mensurada pela proporção de pacientes que receberam uma recomendação de tratamento com base nos seus achados genômicos. Dos 368 pacientes sequenciados, 79 (20,47%) receberam recomendações de terapia direcionada por NGS, porém não houve diferença em SLP desses pacientes em relação aos que receberam tratamento convencional.   

Como conclusão, MTBs são reuniões que devem ser encorajadas, tendo em vista o seu potencial de beneficiar pacientes selecionados. No entanto, o benefício dessa estratégia em termos populacionais ainda não foi demonstrado de forma inequívoca. 

 

Referências: 

  1. Larson, Kara L., et al. “Clinical Outcomes of Molecular Tumor Boards: A Systematic Review.” JCO Precision Oncology 5 (2021): 1122-1132. 
  2. Basse, Clémence, et al. “Relevance of a molecular tumour board (MTB) for patients’ enrolment in clinical trials: experience of the Institut Curie.” ESMO open 3.3 (2018): e000339. 
  3. Radovich, Milan, et al. “Clinical benefit of a precision medicine based approach for guiding treatment of refractory cancers.” Oncotarget 7.35 (2016): 56491. 
  4. Réda, Manon, et al. “Implementation and use of whole exome sequencing for metastatic solid cancer.” EBioMedicine 51 (2020): 102624. 
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