Toxicidade associada a células CAR-T: gerenciamento e fatores de risco

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Estudo coorte avalia toxicidade aguda em pacientes com linfoma não Hodgkin de células B 

O sistema imune tem um papel ambíguo em relação ao câncer: ele ajuda o organismo a combater células cancerígenas, porém, pode gerar reações imunes tóxicas com manifestações clínicas graves. Um exemplo dessa ambiguidade é a terapia CAR-T, onde células T são modificadas recebendo um receptor artificial que as tornam mais ávidas para identificar células malignas, mas que pode gerar tanto a síndrome de liberação de citocinas (CRS) quanto a síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS), potencialmente fatais. O estudo, que utilizou dados coletados por meio do registro francês DESCAR-T, aborda especificamente os fatores de risco modificáveis para toxicidade e avalia a toxicidade de gerenciamento na população do mundo real. 

Para compor a coorte, um total de 705 pacientes (pts) com linfoma de células B agressivo R/R, tratados com produtos comerciais, foram incluídos para a análise de toxicidade com um acompanhamento médio de 12 meses (intervalo: 0,2-39). Notavelmente, 74 pts (11%) tiveram um ECOG/PS ≥ 2 antes da linfodepleção. CRS/ICANS foram classificados prospectivamente (escala de notas ASTCT). Em relação ao escore preditivo previamente validado de CRS e ICANS na literatura, escore EASIX (LDHxCreatinine/Platelets), escore EASIX modificado (m-EASIX: CRPxCreatinine/Platelets) e score EASIX simplificado (s-EASIX: LDH/Platelets) (Pennisi et al., 2021). 

Em relação aos resultados, CRS de qualquer grau ocorreu em 587 pts (83,3%), incluindo 62 (10,5%) com grau 3 ou superior (nota 3+). O tempo médio desde a infusão até o início da CRS foi de 2 dias (intervalo: 0-34); o tempo médio de resolução foi de 6 dias (intervalo: 1-30). Já em relação às ICANS, dentro de qualquer grau ela ocorreu em 289 pts (41%), incluindo 78 (27%) com grau 3+. O tempo médio desde a infusão até o início foi de 6 dias (intervalo: 0-379); o tempo médio de resolução foi de 7 dias (intervalo: 1-100). A maioria dos pacientes (94,5%) com ICANS já havia experimentado CRS anteriormente. Curiosamente, 38% dos pacientes com CRS grau 1, 53% com grau 2 e 65% com grau 3+ desenvolveram ICANS posteriormente. Na análise multivariada, os parâmetros que mantiveram significância estatística para prever qualquer CRS foram Axi-cel e LDH elevado (> limite superior normal). Massa volumosa > 5 cm, idade <65 anos e maior s- A pontuação EASIX, foram fatores que aumentaram o risco de desenvolver CRS grau 3+. Os parâmetros que mantiveram significância estatística para prever qualquer ICANS foram Axi-cel, ECOG ≥2, idade ≥65 e pontuação s-EASIX mais alta.  Para o risco de desenvolver ICANS grau 3+, os parâmetros identificados no estudo foram Axi-cel, ECOG ≥2 e pontuação s-EASIX superior. Nenhum impacto de sobrevivência em sobrevida global (SG) ou sobrevida livre de progressão (SLP) foi detectado para pts que experimentaram qualquer grau ou grau 3+ de ICANS ou CRS. Apenas 89 pts (29,9%) necessitaram de internação em unidade de terapia intensiva. Tocilizumabe foi o tratamento mais comum para toxicidade (411 pts, 68%) e 272 pts (45%) receberam corticosteroides. É importante ressaltar que a dose cumulativa e a duração de tocilizumabe ou corticosteroides não foram significativamente associadas a SLP ou SG adversos. 

Dessa forma, este estudo identificou fatores preditivos biológicos e clínicos robustos de CRS e ICANS. Ainda, demonstrou que a CRS grau 3+, ICANS, o uso de tocilizumabe ou de corticosteroides para toxicidade de CAR-T não causaram um impacto negativo na sobrevida dos pacientes.  

Referências 

SESQUES . P, et al. CAR T-cells associated acute toxicity in b-cell non-Hodgkin lymphoma: real-world study from DECAR-T registry. EHA- European Hematology Association Library, S210;357074. 

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